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Entrevista - Cláudio Virgílio PDF Imprimir E-mail
Escrito por Administrador   
Sexta, 12 Outubro 2007

E  N  T  R  E  V  I  S  T  A  -  Cláudio Virgílio

  

Cláudio Virgílio, com quase 10 anos de voo, é o piloto mais jovem da selecção nacional de parapente, tem apenas 26 anos de idade e  já é  possuidor de um currículo invejável. É um apaixonado pelo voo livre e praticante de Acro nas horas vagas…  viciado em nuvens e caçador de adrenalina. Leva a vida com optimismo com um notável entusiasmo contagiante. Costuma fazer piadas das situações mais sérias e levar as situações de brincadeira muito a sério…
Conheça um pouco do nosso amigo Cláudio sobre a modalidade que abraçou, teve a gentileza de partilhar connosco a sua experiência…

Quando, onde e como começaste a voar e porquê?
O meu 1º contacto com o parapente foi através do meu pai, que sempre foi um entusiasta por quase tudo o que voa. Ele começou a voar em 1994 e foi desde essa altura que eu comecei a voar também, embora apenas mentalmente. Comecei a fazer inflados na asa dele desde o 1º dia em que a vi, a acompanhá-lo sempre que ele ía voar, a ouvir as discussões nas descolagens e aterragens e a aprender. Finalmente em Março de 1998 surgiu a tão esperada frase : " Hoje está bom para voares!" Foi na duna de Salir do Porto ( a Sul da praia dos Salgados) que fiz as minhas 2 primeiras marrecas. Como havia pouco espaço para aterrar na praia (estava maré cheia) tive de aplicar tudo o que sabia para fazer 2 S's antes de aterrar na estreita faixa de areia. O 1º passo estava dado.

E a competir?
A minha 1ª competição foi em Linhares da Beira em 2001. Uma competição B que acabei classificado a meio da tabela. Foi a primeira  vez que estive no meio de tanta gente a voar, a primeira vez que estive a 1800m, a primeira vez que senti medo de estar tão alto mas ao mesmo tempo um prazer imenso. No ano seguinte iniciei-me na competição-A com o apoio do projecto de Jovens Competidores criado  nesse ano pela FPVL. Foi uma ajuda e uma motivação significativa. Desde essa altura que tentei participar em todas as competições que foram havendo em Portugal, só deixando de ir quando não me restava outra hipótese se não ir fazer os exames da escola.


 O que te fascina mais na competição?
Várias coisas me fazem gostar tanto da competição. O facto de poder testar os meus conhecimentos e ao mesmo tempo melhorá-los, conhecer novos sítios de voo, conviver com todos os pilotos. Cada vez que termino uma manga sinto-me como me senti quando aterrei no meu 1º voo. Mais do que a competição, é voar que me faz vibrar.

Quais foram os teus melhores resultados desportivos?
Ser Campeão Nacional Esperança em 2005 e 2006, o 3º lugar no Campeonato Nacional de 2006, 3º lugar na Liga Espanhola Castejon de Sos 2006 e no Campeonato Espanhol em Pegalajar 2007.  O meu 3º lugar do Open de Torre de Moncorvo em 2006 marcou-me porque foi aí que ganhei a minha 1ª manga. Fazer parte da selecção nacional no Campeonato Europeu em Morzine-Avoriaz, França 2006 foi também uma experiência fantástica.

 Uma vez que tens participado em alguns campeonatos internacionais, quais são as
principais diferenças a nível competitivo, dificuldades e de organização em
relação ao campeonato de Portugal?

As provas em que tenho participado em Espanha têm tido sempre bastantes pilotos, tanto espanhóis, como é óbvio, como portugueses, o que por si só já ajuda a aumentar o nível competitivo, mas atrevo-me a dizer que o nível destas competições é elevado porque lá estão os portugueses! As competições portuguesas são cada vez mais competitivas, no entanto, estamos limitados ao voo no plano. A Serra da Estrela é a única miniatura de montanha em que podemos treinar para uma verdadeira prova de montanha nos Pirinéus ou nos Alpes.
Já uma PWC, Campeonato da Europa ou Mundial, com ou sem portugueses, terão sempre um nível muito elevado pois é aí que se defrontam os melhores pilotos do mundo, mas em Portugal há pilotos para disputar os primeiros lugares de cada uma destas provas.
As dificuldades que se encontram a voar nos Alpes são as mesmas que se encontram a voar na Serra da Estrela. Sabendo interpretar o terreno e as condições atmosféricas reduzem-se essas mesmas dificuldades e passa-se a ter de lidar unicamente com a nossa mente. Esta é talvez a maior dificuldade. Manter a concentração, baixar o nível de stress e ter suficiente auto-estima para ser bem sucedido em cada prova.

As organizações portuguesas superam qualquer organização internacional e a minha desorganização pessoal é a mesma estando em Portugal ou no estrangeiro Mas ando a trabalhar para melhorar!

Utilizas alguma estratégia em particular durante a competição que possas divulgar?
Além duma estratégia ultra-secreta e que não vou divulgar, à base de uma dieta de esparguete misturado com tudo o que possas encontrar na prateleira de um qualquer minimercado, um dentinho de alho (muito importante!) e um ovinho cozido, não utilizo nada de especial. Tento relaxar antes de ir para o ar lendo um livro, ou ouvindo musica. Também gosto bastante de ouvir musica enquanto ando a voar seja competição ou lazer. Já ler, ainda não arranjei maneira de virar as páginas sem largar os manobradores...

Desde que iniciaste a modalidade de parapente, qual foi o teu momento mais marcante e porquê?
Há vários. As mangas que ganhei e as que cheguei em 2º. Aquelas em que quase cheguei em 1º e em 2º e as provas que perdi por falta de calma também marcaram e foram aquelas em que aprendi mais.
O meu primeiro full stall e a minha primeira Sat que foram feitos no mesmo dia e que me puseram a adrenalina em níveis que nunca tinha experimentado antes. Ainda me lembro de aterrar e estar completamente a tremer de satisfação, alegria e muita adrenalina.

 
E qual foi o pior e porquê?
Também já tive alguns sustos. Quando puxei o reserva e ele ficou empacotadinho à minha frente a passar entre os fios da asa foi talvez o mais marcante. Se bem que este momento deveria ser incluído nos momentos positivos porque a asa recomeçou a voar e felizmente o reserva não abriu.

Quando se dedicam alguns voos à acrobacia passam-se a ter momentos quase marcantes, como por exemplo, o quase cair dentro da asa ao tentar um looping, o quase bater com toda a força no chão num giro de la muerte ou o também marcante "quase que me aleijava nesta aterragem de costas ao vento a 70km/h". Estes sustos acabam por ter todos a mesma origem: excesso de confiança.

Na tua opinião, quais as  qualidades que  são necessárias para se obterem bons resultados competitivos?
Muita auto-estima, calma, perspicácia e um bom kit de unhas. Concordo com aquela frase que diz que uma competição de parapente é ganha com 10% de técnica e 90% de bem-estar mental e acho que se pode estender esta frase a todos os grandes voos.

Quais os conselhos que davas a jovens como tu que se quisessem iniciar na vertente competitiva?
Comam antes uma peça de fruta que vos faz bem melhor... Aprende-se muito estando simplesmente na descolagem de uma competição ou depois de cada manga ouvindo e discutindo as opções de cada piloto. Se ainda não têm o nível 4 necessário para participar nas competições portuguesas ofereçam-se como wind-dummies. Não tenham medo, apareçam e voem sempre que as condições o permitam.


 Sabemos que praticas algumas manobras acrobáticas. Como encaras esta disciplina
e como vês o futuro da Acro em Portugal?

A acrobacia surgiu naturalmente e encaro-a cada vez mais a sério. Pretendo dedicar-me mais e embora ainda tenha muito para aprender espero chegar ao Infinity tumbling (looping contínuo em que o piloto roda de costas sobre um eixo horizontal situado entre o piloto e a asa). Em Portugal, infelizmente, somos poucos a dedicar-se à acrobacia, se bem que andam aí uns quantos que se vão dedicando involuntariamente, e existem muito poucos locais de voo que oferecem as condições perfeitas para a prática em total segurança. Altitude por cima de água, um barquinho de recolha e uma cervejinha geladinha na margem seria o ideal.


Quais são os teus sonhos na modalidade que gostarias de realizar?
Quero voar até não me lembrar que voei no dia anterior! Quero continuar a divertir-me e a aprender em cada voo que faça.


Para terminar; deixa uma mensagem...

 A quem voa: quando é que nos encontramos na nuvem outra vez?
  A quem ficou com vontade de começar a voar: experimentem um voo de bilugar, multipliquem por  mil todas as sensações que tiverem e apareçam na nuvem também!
 
 Um abraço a todos

ClOudyo

nota: autor das fotos de cima para baixo; Diogo Cardoso; Theflyngeye-com; Rui Nascimento; Diogo Cardoso

 

Actualizado em ( Quinta, 17 Julho 2008 )
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